por Almir Pereira
Por que não tomar parte na luta de
massas governistas e anti-governistas que ocupa as ruas a
favor e contra o impeachment de Dilma Roussef? O impeachment é um golpe de
Estado por falta de base jurídica como quer Dilma e seus aliados? O
impeachment é o retorno do império da lei como querem os
partidários do impedimento da presidente?
As massas sujeito zero burguês
sabem que o segundo passo do impeachment é a implantação do Plano
Temer, que vai atacar frontalmente os direitos sociais e o que ainda
resta dos serviços públicos do país. Por isso tais massas se
agarram à defesa da presidente como seu último baluarte de
resistência ao plano burguês de Temer.
Acontece que ao fazer isso as
massas sujeito zero burguês apostam em uma posição política
regressiva, já que a contrarrevolução bolivariana de Dilma está
acelerando a catástrofe econômica e política do Brasil.
Dilma é parte da implosão econômica a que o bolivarianismo (Era
FHC + Era Lulista) levou o país e sua reação à tal implosão é
de uma indefinição extrema, inclusive com traços de reação
anti-social. O desencaixe Brasil do capitalismo corporativo digital mundial em virtude da estratégia bolivariana de manter-nos sob o domínio do capitalismo de engenho lançou a nação no abismo da desindustrialização e da submissão ao capitalismo de commodities (agrícolas e minerais). A crise também é uma crise da hegemonia do capitalismo de commodities no bloco-no-poder.
Em uma demonstração de total
falta de rumo e de inconsequência, Dilma acabou de sancionar a lei
Mateus (lei Aloísio Nunes Ferreira – PSDB), a lei anti-terror, e
garantiu um dispositivo totalitário funesto para que Temer aplique, assim que assuma a presidência, seu plano burguês contra as massas, do funcionalismo público e
defensoras dos direitos sociais.
Outro traço míope das massas
sujeito zero burguês ao apoiarem Dilma é o de se deixar subssumir à
lumpencultura que é dominante no atual governo. JP Bandeira
demonstrou em texto recente como a lumpencultura tem um
papel preponderante na desterritorialização do Estado nacional.
Subssumidas a tal cultura política as massas sujeito zero burguês
alienam a defesa dos direitos sociais à subclasse política lúmpen,
que tem como objetivo ontológico o uso privatista dos recursos
públicos.
A garantia dos direitos sociais e
do Estado brasileiro é indivisível de uma recusa frontal da
lumpencultura da subclasse política. As massas sujeito Ø burguês
estão inscrevendo-se no imaginário nacional como defensoras da
fração lumpen de esquerda, da subclasse política brasileira.
Num provável governo Temer o
combate a tais massas irá usar essa imagem para atacá-las como
massas coniventes com a corrupção. No entanto, tais massas já se
alienam ao imaginário bolivariano há décadas e seu destino já
parece estar selado, assim como o destino do governo Dilma: ser
suplantada por um golpe de Estado.
O tema do golpe de Estado colocou
em campos opostos alguns ministros do STF e a presidente Dilma
Roussef na semana que passou. Para Dilma não há base jurídica para
seu impeachment, por isso o trâmite deste no Congresso seria um
golpe de Estado em gestação. Para os ministros Dias Toffoli e
Cármen Lúcia, do STF, se o Congresso aceitar a proposição de
impeachment, que lá tramita atualmente, isso não é golpe, mas
apenas um procedimento constitucional.
Do ponto de vista jurídico os
ministros do STF estão corretos, excluindo-se o adendo que Eduardo
Cunha fez à petição inicial baseada nas “pedaladas fiscais”.
Cunha anexou ao pedido as denúncias feitas por Delcídio do Amaral
ao Ministério Público Federal. Esta ação de Cunha foi uma
flagrante ilegalidade golpista, que a Comissão Especial do Impeachment já
corrigiu descartando tal anexo.
A questão do golpe de Estado não
é jurídica como afirma Dilma. Ela é política. Conversando com um
amigo acerca disso ele declarou: “se o atual processo for golpe,
como quer a Dilma, então o impedimento de Collor em 1992 também foi
golpe”, juridicamente meu amigo está correto, mas politicamente é
a Dilma que está certa, embora ela não afirme que é um golpe de
Estado apenas do ponto de vista político.
Em 1992, Itamar Franco desferiu um
golpe de Estado em Collor e nas massas democráticas que se opunham
ao déspota. Tomou o poder um político pusilânime que se manteve calado diante do despotismo collorido até vislumbrar o momento
favorável à tomada do poder. A substituição do déspota pelo
pacto oligárquico que gestaria o bolivarianismo de FHC+Lula não era
o que as massas democráticas de 92 almejavam.
Já é quase um fato que o PMDB e
congêneres desembarcaram da liderança que Dilma Roussef/ PT e Lula exercem no modelo político lúmpen? Por que isso está acontecendo? Porque não
acreditam mais na capacidade de liderança destes para reorganizar a
política e a economia e acham mais viável um novo pacto
lúmpen-burguês com o PSDB. Porque o PMDB e congêneres chegaram a
esta conclusão? Porque eles entendem que o programa de saída da
crise está consubstanciado nos planos Temer I e II (capitalismo de
engenho sem direitos sociais e sem o Estado brasileiro) e não lhes
parece que seja viável fazer o PT aceitar isso, por mais que o
partido de Lula já tenha feito várias concessões inimagináveis ao
passado petista. Além disso, os conspiradores do PMDB-PSDB esperam que a derrubada do governo Dilma sirva de bode expiatório para salvar da Operação Lava-jato a fração
lumpen-oligárquica (PSDB/ PMDB etc) que subirá ao poder com o
impeachment.
Em 2016 o PMDB está consolidando
“sua identidade de o maior
partido conspirador da era da Constituição de 1988”.
No texto deste link pode-se entender em detalhe como a não regulamentação, até
hoje, dos crimes de
responsabilidade do presidente da república, exigida pelo Parágrafo
Único do artigo 85 da Constituição, de inspiração peemedebista,
garante uma situação
constitucional “ao
sabor da formação do algorítimo/consenso ditatorial da classe
política contra o presidente da República”.
A
conspiração de Michel Temer para aceder ao cargo de presidente da
república não o transforma num criminoso? No emaranhado de crimes eleitorais que envolve a Presidente da República, seu vice e uma fração expressiva do
Congresso Nacional só uma eleição geral em nível federal pode
restabelecer alguma legitimidade nos termos da Constituição de
1988, para
a qual
o povo é
o soberano.
A
dissolução da representatividade a que a lumpencultura relegou os
poderes executivo e legislativo federais só pode ser superada por
uma eleição geral limpa e confiável. Qualquer
outra alternativa representa um golpe de Estado contra a soberania
popular e
o aprofundamento de conflitos que só podem nos levar em direção ao
pior.
sexta-feira, 25 de março de 2016
sexta-feira, 18 de março de 2016
De Karina Santos, "Ditadura Brasileira versus massas democráticas"
O texto a seguir foi muito bem escrito por Karina Santos. Tem uma concatenação digna de nota, o que, além do talento literário da Karina, parece também espelhar a clareza de pensamento que a física historial inspira em seus leitores. Karina soube captar as linhas de força principais que a leitura da política pela física clarificam: ditadura brasileira versus massas democráticas. Mas o principal no trabalho dela talvez seja a demonstração de que a física possibilita a saída do leitor dos anacronismos intelectuais que o universo acadêmico tanto patrocina. Karina tem a sensibilidade necessária para captar o real da política pelas lentes da física. Enfim, trata-se de uma leitora sintonizada com o século XXI. A parte final do texto mostra que ela reconhece o sentido principal da física historial: explicar a realidade concreta e não ser apenas mais uma forma de discurso universitário.
Ditadura Brasileira versus massas democráticas
Autora: Karina Porciuncula de Almeida Rodrigues Santos
Em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, Marx enfoca o período histórico no qual Luís Bonaparte chega à presidência na França, em 1848, até o golpe de Estado, em 1851. Em complemento ao que dizia Hegel sobre a repetição de acontecimentos na história, o livro alude a uma clássica passagem de Marx, sobre fatos e personagens acontecerem duas vezes na história da Humanidade, a primeira como tragédia e a segunda como farsa. Isto é, trata-se de dois personagens com igual sobrenome assumindo o “mesmo” cargo na França. Interessante são os contextos diferenciados, as classes modificadas, mas é sobre o sentimento dos indivíduos ao optarem por uma possível continuidade de governo, que se constrói a farsa de Luís.
Antes de se analisar a repetição histórica em França, deve-se elucidar sobre o porquê da obra de Marx estar ainda tão viva, seja na Academia ou nas instituições políticas, para aqueles que concordam e para os que discordam de sua ideologia, para liberais ou comunistas, pessoas com muita ou pouca experiência. As teses do autor não são presas a só uma disciplina, podendo ser vistas e revistas por amantes de sua Filosofia da Natureza, pelos agarrados a seu modo de análise, ao mesmo tempo, teórico e prático, mas certamente todos podem desfrutar de seu brilhante ecletismo. Dessa forma, os escritos de Marx são mais do que úteis, primordiais para se interpretar os dias atuais, tanto na observação de um modelo analítico, quanto na intrínseca comparação com o hoje, uma vez que, a história do mundo se repete, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. (MARX, 1974).
Sobre o 18 de Brumário, “não é um texto científico ou literário”, sendo para Lenin, “o modelo do método análise concreta de uma situação concreta. Lenin deixou de explorar a verdadeira epistemologia política da obra que combinava interpretação com explicação, ciência com filosofia cultural política e literatura. Em Marx, a trans-subjetividade faz interseção com a subjetividade, o romantismo faz interseção com o iluminismo na trans-subjetividade grotesca das massas, a razão faz pendant com o inconsciente nietzschiano antes de Nietzsche. Marx é o primeiro fundador da discursividade que opera a realidade dos fatos com o significante técnico.” (SILVEIRA, 2016). Sobre tal, explicitar-se-á ao longo do texto.
Marx inaugura um conceito na Filosofia, o de cultura política intelectual, sendo presente no uso das ideias em vez dos conceitos, transdisciplinar, e conseguindo transformar a realidade.
Para além, pode-se perceber que a combinação das três determinações básicas usadas por Marx (economia, luta de classes e forma política) se relaciona com uma conjuntura política específica, e mais detidamente, articula-se em cultura política. Esta, alude ao conceito de trans-subjetivo, a “subjetividade das massas sem sujeito”. (SILVEIRA, 2016).
Quando Marx propõe o conceito de história mitológica, faltam os de “subjetividade” e “trans-subjetividade”. O primeiro tem ligação com Napoleão e sua figura mítica, sua construção como mito que provoca choque na história mundial até os dias atuais; o segundo, com as massas. Dessa forma, a construção da história mitológica para o autor se dá pelo mito de Napoleão.
Nesse ponto, é importante esclarecer sobre a palavra “mito”. Em “Razão Digitalis Versus Ditadura Fascista Eletrônica Mundial”, Silveira o coloca como possuidor de um caráter mais do que subjetivo, trans-subjetivo na ordem da cultura política, entrelaçada pela natureza e pela cultura. Ele dá voz ao real, ajuda a compreender aquilo que estivera apenas no campo simbólico, mesmo que não tenha valor explicativo, porém articula a trans-subjetividade ao real. Em paralelo ao mito de Napoleão, tem-se, no Brasil, o mito Lula. O bolivariano de esquerda tem sua fonte de energia mítica no narcisismo, assim como o bolivariano de direita, FHC. Os dois fazem parte da tela eletrônica, a qual interpreta o papel do espelho d’água no mito de Narciso, e que consome os envolvidos. A questão é que esses mais do que dependem um do outro para sobreviver, espalhar e perpetuar seus bolivarianismos, são cabeças da mesma Hydra de Lerna, associação presente em “Fascimos”, sendo uma “árdua” tarefa derrubar um sem o mesmo acontecer ao outro. Fazem parte de uma mesma cultura política eletrônica bolivariana, dominam o Brasil e tinham articulação para se revezarem no poder presidencial republicano, até um deles quebrar o acordo. PT e PSDB são partidos que outrora tomaram o mesmo lado no impeachment de um presidente, assumindo uma coalizão de oposição, travaram disputas eleitorais grandiosas até uma cabeça da Hydra desejar ser mais forte, ter mais importância na cultura política do que a outra.
Seguindo quanto a frase de Marx aprofundada de Hegel, a ascensão de Napoleão se configura como processo trans-subjetivo da burguesia e do proletariado. O momento de Luís é uma comédia histórica não poética, mas vulgar, da cultura política bonapartista, sendo o contrário do que se considera sério, racional, lógico.
Marx fala em como formar tal cultura intelectual, ressaltando a importância do jornalismo, do romance e da estética, de forma geral. O impasse dessa formação é o jornalismo “witz” que temos no Brasil, coligados com grandes partidos políticos, interessados em lançar fatos sem apurá-los, sem qualquer profundidade, em defender o sistema exposto, em ludibriar as massas ao dar importância mais do que suficiente a eventos pontuais, como o Carnaval ou o futebol, ao passo que o país vive uma crise econômica, política e institucional. Os jogos jornalísticos conseguem dispersar a massa, criam hiper-realidades e minimizam causas de relevância, modificam a balança e invertem conjunturas, sempre a seu favor e de quem a apoia.
“Em Marx, a crise econômica torna-se uma determinação da crise política quando a percepção da burguesia estabelece uma relação fatal entre crise política e crise econômica” (SILVEIRA, 2016). Em Microfísica do Poder, Foucault trata o poder como algo que circula, se exerce em rede, não está detido em uma classe, mas são os indivíduos centros de sua transmissão. O autor não deduz um fenômeno geral da dominação da classe burguesa, mas se propõe a analisar, histórica e ascendentemente como se deram os mecanismos de controle. Ele conclui que a burguesia nunca fora contra determinados comportamentos, apenas a partir de determinado ponto percebeu que suas proibições e o desenvolvimento de mecanismos para deslegitimá-los pudesse lhe trazer lucro econômico e uma utilidade política, transformando tais mecanismos em globais e aceitáveis.
Se se for pensar o caso do Rio de Janeiro, este é o elo mais fraco do bolivarianismo brasileiro, podendo se romper a qualquer momento, visto que a máquina de guerra oligárquica peemedebista, coordenada por Cabral, além de ter vida indissociável do Grupo Globo, não tem amigos, mas interesses, típico da classe burguesa dominante, jogadora do time que oferecer melhores condições de jogo.
Em 18 Brumário, Marx se propõe a explicitar o processo que colocou Luís Bonaparte no poder, isto é, como ele foi de sobrinho de Napoleão a Imperador, de que forma a luta de classes (campo de poder monárquico/burguês, ditatorial democrático) influenciou causalmente nessa transformação, tornando um personagem medíocre e grotesco em herói. Deve-se ter em conta que esse processo só fora possível uma vez que as massas estavam ligadas a cultura política ditatorial napoleônica. (SILVEIRA, 2016).
Em “Marx - Autodissolução da Democracia de 1848”, Silveira analisa que Marx vê que no exame da conjuração dos mortos da história, os heróis instalaram a moderna sociedade burguesa, em trajes romanos e frases romanas. Dessa forma, Napoleão se enquadra como aquele que desencadeou a revolução burguesa, a qual se liga com a tragédia histórica e se usa da tradição (romana) como linguagem de tal tragédia. Luís trouxe consigo o mito de seu tio e também a tradição romana.
Uma análise sobre as massas dos dois momentos pode ser bem elucidativa. Em “Teoria da Trans-Subjetivação Ditatorial das Massas”, Silveira vê que nquanto os camponeses do período napoleônico tinham interesses consoantes com a burguesia, no segundo momento, a massa camponesa tem um projeto que mais a assemelha ao proletariado urbano. Se aquelas (napoleônicas sujeito zero) eram revolucionárias, essas (bonapartistas) não desenham o mesmo quadro. No segundo momento, o sobrinho consegue o apoio de todas as classes, tornando-se líder carismático do processo de trans-subjetivação das massas, ora napoleônicas, ora bonapartistas. Deve-se ter em conta que, agora como farsa, o mito Bonaparte continua vivo.
Sendo Luís esse líder, tem-se uma comédia histórica vulgar, com seu governo parodiando 1789, visto que seu tio fora o líder da tragédia histórica. Ou seja, no período napoleônico adveio-se uma cultura política poética, fundamentada na tradição romana, e do período bonapartista, uma cultura política burguesa prosaica, ou mais ainda, uma cultura política como trans-subjetivação ditatorial heróica.
A eleição de Luís Bonaparte, personagem medíocre, só se tornou possível pelo fato das massas carregarem uma trans-subjetividade ditatorial fomentadora de um herói ditador, e, é claro, também pela luta de classes. As massas camponesas e lumpen-proletárias trans-subjetivas possuem grande culpa no processo de construção da cultura política mitológica ocidental moderna, tanto por Luís, quanto por Napoleão.
Por conseguinte, as massas burguesas trans-subjetivas ditatoriais acabam “legitimando” o golpe de Estado, o que acaba por se virar contra ela mesma com a redução de sua dominação frente ao novo Imperador. Portanto, a luta entre burguesia e proletariado, de forma genérica, fabrica a necessidade de um governo que restaure a fé das duas classes no que defendem. Surge, pois, o sobrinho de uma figura mítica, absorto na cultura política intelectual francesa, como governante.
Como um de seus feitos, Luís Bonaparte forma a chamada Sociedade de 10 de Dezembro, composta por toda a massa indefinida e desintegrada, como “roués decadentes, de fortuna duvidosa e de origem duvidosa, arruinados e aventureiros rebentos da burguesia, vagabundos, soldados desligados do exército, forçados foragidos das galés, chantagistas cujo objeto é o refém”. (MARX, 1974)
Aludindo a esse aspecto, tem-se o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e a máquina de guerra de seu partido, PMDB, assim como Luís fora máquina de guerra política grotesca. Paes transformou a Guarda Municipal, criada por César Maia nos moldes da Sociedade de 10 de dezembro, em milícia fascista (SILVEIRA, 2016). Esta serve aos interesses, mais uma vez, de uma classe, agindo de forma arbitrária pela cidade, fazendo distinção na abordagem em relação a quem, quando e onde. De fato, a Guarda age de forma truculenta nas ruas do Rio, durante todo o ano, e pouquíssima é a atenção dada a tais fatos. Novamente, a inerente ligação entre o partido citado e o Grupo Globo, principal regulador, é nítida e traz a reflexão de que este narra fatos não reais, ilusórios, fantasmagóricos, deixando todos reféns da tele eletrônica, do capital corporativo eletrônico mundial e de uma ditadura fascista peemedebista eletrônica global.
Se pensarmos em como Marx aborda Luís, personagem infame de um romance grotesco da cultura política intelectual das massas, que sai como herói de massas trans-subjetivas ditatoriais, percebemos como o autor relembra em detalhes a saga de Luís, indiferentemente de seu caráter ser positivo ou negativo, uma vez que o eterniza na cultura política intelectual.
Ademais, pode-se ver Marx como máquina de guerra de pensamento contra-capitalismo (SILVEIRA, 2016), fazendo mais do que relembrar a época, mas elucidar sobre a farsa vulgar e cômica que as massas trans-subjetivas francesas transformaram em mito, funcionando como um contra poder na cultura política oficial francesa. Dito isso, Marx mais do que eternizava Luís em sua obra, mas assume o protagonista do herói-ditador ao se amalgamar a cultura política intelectual francesa e mundial.
Frente as novas formas de organização de capital e das tecnologias, os textos escritos e impressos perdem muito espaço para a produção digital trans-textual, devido a sua voracidade de circular mais em menos tempo, atingindo expectativas lucrativas. Da mesma forma, a dupla que se “confundira”, autor/herói-ditador, parecem se iludir na realidade da cultura política mundial, transformando-se em máquina de guerra literária (capitalista ou contra capitalista) e ditador eletrônico populista, de carisma prosaico, respectivamente. (SILVEIRA, 2016).
Uma vez que se falou sobre as novas organizações de capital e de tecnologia, é justo colocar como elas se influenciam. O domínio do capital corporativo internacional esteve nas mãos dos Estados Unidos até a segunda metade do século XX, quando pelo processo de desterritorialização da nação, o capital corporativo ultrapassou fronteiras e se tornou digital mundial. Na época digital, os Estados Unidos deixam de ser a nação que dominava o capital, e são apenas uma como os outras, mas que possui um modelo orgânico de relação do eletrônico com a universidade, servindo essa aos interesses midiáticos. Esse modelo é reproduzido em outras localidades, inclusive no Brasil, onde a Globo News, principalmente, roteiriza falas de seus convidados acadêmicos para iludir as massas com falsos discursos de autoridade.
Em consonância a essa mudança, as relações sócias de produção são agora relações sociais trans-subjetivas.
É importante lembrar ainda que o “digital” surge como fruto da associação entre o complexo industrial e o modelo de comunidade de informação, sendo a cultura política digital, mundial, trans-subjetiva, enquanto a cultura política das classes sociais se liga a cultura eletrônica, internacional.
Pois bem, qual a aplicabilidade dessas questões em nosso cotidiano de país?
Em “Razão Digitalis Versus ditadura Fascista Eletrônica Mundial”, tem-se a seguinte passagem: “o estado do Rio de Janeiro é a ditadura bonapartista peemedebista de uma lumpen-oligarquia. No ‘O 18 de Brumário’, o bonapartismo é definido por um aspecto essencial. Trata-se da inscrição na política francesa do lumpen-proletariado bonapartista condensado na instituição política criminosa ‘Sociedade 10 de Dezembro’”.
O Brasil é um país historicamente oligárquico. Vargas, apesar de nascer oligarca, é um Príncipe moderno, e seus sucessores Juscelino, FHC e Lula também o são. O Rio de Janeiro tem em seu “bloco no poder”, garantidor de unidade do país, uma oligarquia membra de um partido político, o PMDB, o qual além de controlar a política, é a máquina de guerra onipresente no estado e conta com a ajuda midiática, majoritariamente do Grupo globo para manter sua hegemonia. O bloco controla as massas pela cultura política, principalmente a informacional, sendo assim, a manipulação dessas tem um grande regulador. A importância de ludibriar as massas está na sua potente trans-subjetividade. O bloco pretende quebrar a relação do Estado populista (criação varguista) com essas massas.
Quando se diz que o estado do Rio de Janeiro é uma ditadura bonapartista remete-se muito aos mecanismos de controle local, como a Sociedade de 10 de Dezembro e a Guarda Municipal, fascistas. Com a ação do Grupo Globo e seu domínio eletrônico, pode-se dizer que o Rio de Janeiro é uma ditadura fascista peemedebista eletrônica global (SILVEIRA, 2016).
Cabe ainda colocar sobre a abrangência nacional desse partido e de tal mídia. Juntamente destes, PT e PSDB, encabeçados por Lula e FHC, cabeças de uma mesma Hydra, bolivarianos, alternadores da presidência, formam o grupo que dita o Brasil. Enquanto PMDB se reinventa a cada conjuntura para continuar por cima, aliando-se aos mais diversos partidos, o Grupo Globo constitui o grupo de poder de uma ditadura eletrônica, PT e PSDB coordenam uma ilusória, fantasmagórica democracia. Fantasmagórica no sentido de ilusório, sendo assim o Estado, como em “A Ideologia Alemã”, um fantasma. Este, na modernidade, pode ser visto no próprio projeto de nação. Tal ideia, seus ideais, fundamentalmente o de cultura, é um fantasma poderoso.
Em “Fascismos”, Silveira propõe a indagação sobre ser possível caminhar do bloco político bolivariano PT/PMDB/PSDB para uma ditadura fascista bolivariana, a qual graças ao Grupo globo, também seria eletrônica.
Pode-se concluir que o grande enfoque são as massas. Essas se despertam ocasionalmente, tendo sua fé em algo positivo renovada, elegendo presidentes ou manifestando-se nas ruas por sua queda. É esse poder que assusta a burguesia, a oligarquia dependente do canal midiático para conter a trans-subjetividade das massas, ou melhor, torná-las apoiadoras de seus interesses.
As massas que suportaram Napoleão na França, transformando-o em mito trágico, construindo a história mitológica, elegeram Luís, 51 anos o governo de seu tio acreditando que o velho mito poderia reviver em seu sobrinho, continuando com o mito Bonaparte, mas já como uma farsa, cômica e vulgar, defensor da ordem burguesa.
No Brasil, massas legitimaram o governo ditatorial de Vargas, inaugurando uma era de populismo. A ditadura militar veio por fim a revolução populista, impondo uma contrarrevolução conservadora (sempre). Na década de 1980, a crise da economia de guerra civil fez com que a revolução bolivariana retirasse o comando do país da política e da economia, passando-o a economia de mercado. Essa, associado a corrupção eletrônica, são fundamentais para a economia de guerra. O bolivarianismo brasileiro confronta com o populismo.
Qual papel podem ter as massas na reconstrução da República brasileira, na passagem da sua cultura para cultura política, no enfrentamento aos reguladores midiáticos, de que forma podem deixar de ser uma unidade cega e exercerem seu poder trans-subjetivo, no momento muito fraco comparado ao global digital? Deve-se ter em conta que as massas simulam a paz, visto que não podem ser como as máquinas de guerra aqui descritas, violentas e fascistas.
De fato, a contrarrevolução bolivariana está em marcha, observável se atentarmos para o que acontece em nossas instituições e em nosso país, desmantelado por interesses dominantes muito contrários a ideais republicanos e democratas.
Referências Bibliográficas:
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. “Soberania e Disciplina”. Graal, 2009.
MARX. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Pensadores. SP: Abril Cultural, 1974.
SILVEIRA, José Paulo Bandeira. Marx - Autodissolução da Democracia de 1848.
SILVEIRA, José Paulo Bandeira. Fascismos. Disponível em: http://politicajosepaulobandeira.blogspot.com.br/. 2016.
SILVEIRA, José Paulo Bandeira. Razão Digitalis Versus Ditadura Fascista Eletrônica Mundial. Disponível em: http://politicajosepaulobandeira.blogspot.com.br/. 2016.
SILVEIRA, José Paulo Bandeira. Teoria da Trans-subjetivação Ditatorial das Massas. Disponível em: http://politicajosepaulobandeira.blogspot.com.br/. 2016.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Cuba e o jornalismo foraclusivo
por Almir Pereira
Qual é a cadeia
significante que pilota a política cubana na atualidade? Qual é o
significante mestre que ordena o sistema político de Cuba? Ao
fazermos uma cobertura jornalística sobre a sociedade cubana atual e
sua inserção no mundo, as respostas a tais questões são
desprezíveis? Em Cuba ainda vigora a cultura política totalitária
stalinista no mundo-da-vida, na política e no aparelho de Estado? O
totalitarismo stalinista cubano é filiado à tradição populista
latino-americana e russa (Bandeira, 2015). Fazer uma matéria
jornalística com pretensões abrangentes, mas evitando tocar na
lógica que pilota a política cubana é uma capitulação frente ao
stalinfidelismo.
O significante
totalitarismo stalinista é primordial para entendermos Cuba na
atualidade. Se a produção jornalística tiver pretensão de tratar
da realidade cubana excluindo este significante, tal operação terá
o status de uma foraclusão? Neste caso, a foraclusão significa “a
rejeição de um significante primordial para fora do universo
simbólico do mundo-da-vida do sujeito-população cubana”
(Bandeira, 2014). O sujeito-população cubana vive sob a égide de
um significante primordial que, na abordagem jornalística, é
rejeitado como se fosse algo inexistente no universo simbólico desta
mesma população. A sociedade do espetáculo latino-americana, quase
na sua integralidade, trabalha com a foraclusão do totalitarismo
stalinista!
Foracluindo os
significantes primordiais da política cubana o jornalismo brasileiro
amarra um laço que ata a população brasileira ao inconsciente
político stalinista. Dessa forma desaparecem para o público
brasileiro os “gestos, alucinações, delírios, sugestões,
funções e ritos fáticos”(Bandeira, 2014) de ordem stalinista,
que habitam o cotidiano da população cubana. Assim as diferenças
políticas no campo da vida, entre Cuba e o Brasil, não vão
desaparecendo? Assim a importância das liberdades democráticas
vigentes no Brasil não é dissolvida pelo totalitarismo da sociedade
do espetáculo? Ao retratar Cuba foracluindo o totalitarismo
stalinista, o jornalismo brasileiro revela sua verdadeira face
anti-liberal e anti-libertária. A foraclusão do totalitarismo
stalinista pelo jornalismo brasileiro revela, por um lado, o caráter
de simulacro do liberalismo político midiático e, por outro, o
funcionamento artefactual da lógica totalitária da indústria da
comunicação brasileira.
Em recente entrevista ao jornal espanhol El País,
Pablo Milanés, um dos maiores ídolos da música popular cubana,
apontou para a ignorância da mídia mundial em relação aos campos
de concentração stalinistas (Gulags) que vigoraram em Cuba por
décadas e que chegaram a encarcerar 40.000 pessoas e submetê-las ao
regime de trabalhos forçados. Além dos Gulags cubanos, Milanés
também aponta para os “procedimentos stalinistas que prejudicaram
intelectuais, artistas e músicos” através de coação peloo
regime político sobre o trabalho destes profissionais. Pablo Milanés
ainda continua alinhado com a esquerda latino-americana e é
admirador de governantes como os presidentes Rafael Correia do
Equador, Evo Morales, da Bolívia e Pepe Mujica, do Uruguai. Apesar
de ainda ter uma posição política de esquerda, o cantor cubano
denuncia que a suposta abertura pela qual estaria passando Cuba é
uma ficção. Ele lembra que “sempre disse que essas aparentes
aberturas são simplesmente maquiagem e que é preciso ir a fundo,
caminhar pelas ruas para ver que nada mudou”.
No tocante à
permanência da política cultural stalinista no país, que Milanés
também aponta na entrevista citada, o caso da banda de rock
anarcopunk Porno Para Ricardo é uma evidência de que não houve
abertura nenhuma em Cuba. Gorki Águila, vocalista da banda, foi
preso em 2008 sob a acusação de periculosidade, ou seja, acusado de
ter a intenção de
cometer crimes. A criminalização das intenções é um dispositivo
jurídico tipicamente totalitário e que também foi a base da
argumentação dos USA para a invasão do Iraque em 2003. Rivais em
vários temas, as elites políticas cubana e norte-americana tem
muita afinidade quando se trata de usar dispositivos totalitários
para a manutenção e ampliação de seus poderes. Depois de solto,
Gorki Águila passou a ser vigiado permanentemente “por câmeras,
como se estivesse em um cativeiro público”.
Uma violação do direito básico à privacidade que qualquer
indivíduo deve ter, mas que a cultura política stalinfidelista não
reconhece. É curioso que a maior exposição de tais fatos na mídia
brasileira tenha se dado no programa Música na Mochila, um programa
documental especializado de um canal por assinatura. A dissidência
anarcopunk cubana é desprezada pelos “liberais” do jornalismo
político brasileiro.
Outro exemplo de que a
política stalinista está em pleno vigor em Cuba e que Milanés está
certo ao apontar o caráter de simulacro da suposta abertura cubana é
a denúncia feita pela Comissão de Direitos Humanos de Cuba, no
último dia 22 de fevereiro, um domingo.
Naquele dia foram presos em Cuba mais de 150 ativistas dos direitos
humanos. Estas prisões ocorreram depois da reaproximação
diplomática entre os USA e Cuba. Será que o regime cubano teme que
as passeatas dominicais do grupo Damas de Branco, que luta pela
libertação de presos políticos, ganhe a simpatia da população e
se transforme num movimento de massas anti-totalitário? Seriam estas
prisões um sinal emitido pelo governo cubano para a população, de
que a reaproximação com os USA não significará um milímetro de
deslocamento na direção totalitária da cultura política cubana?
No Brasil o
totalitarismo cubano é um tema tratado pelo jornalismo com
diferentes graus de foraclusão. O jornalista Fernando Gabeira é um
egresso da luta armada da esquerda contra a ditadura militar de 1964,
que renegou esse passado e se converteu num pacífico defensor dos
direitos individuais e das liberdades políticas. No entanto, Gabeira
publicou um artigo em 24/10/2014, no qual distancia o regime político
cubano do totalitarismo stalinista. Para Gabeira, ao contrário da
esquerda comunista européia , “no Brasil, o stalinismo não tem o
mesmo peso. O fio da meada é a relação [da esquerda brasileira]
com a ditadura cubana, a admiração por um regime falido e o
silêncio inquietante sobre seus crimes”.
Se o regime cubano não é stalinista, como Gabeira o classificaria?
Seria um tipo de totalitarismo sui generis? A posição de
Gabeira leva água para o moinho daqueles que querem manter o
“silêncio inquietante” diante da ausência de liberdades em Cuba
argumentando que trata-se de um regime mais brando que o stalinismo.
Gabeira se tornou um intelectual dócil, e cordato, em relação à
ideologia dominante latino-americana bolivarianista?
O conselho dado acima
por Pablo Milanés, de caminharmos pelas ruas de Cuba para ver como
vive sua população, foi seguido por dois jornalistas brasileiros da
GloboNews durante alguns dias do último mês de janeiro. Através de
caminhadas pelas ruas de Havana, abordando seus habitantes, os
jornalistas produziram uma longa reportagem, que foi ao ar no Jornal
das Dez, daquela emissora, nos dias nove, dez e onze de fevereiro de
2015. Essa reportagem teve como principal pretensão apresentar as
condições de vida em Cuba e a opinião dos cubanos sobre uma série
de assuntos.
A exibição da
reportagem sobre Cuba pelo Jornal das Dez começou com uma entrevista
do âncora com os repórteres que estiveram em Havana produzindo a
matéria. O estranhamento já se inicia por aí. Os repórteres
falaram dos vários entraves que o Estado cubano opôs à realização
da reportagem, mas em nenhum momento apontaram como causa disso o
controle total que o regime político de Cuba exerce na produção de
informações sobre aquele país. O espectador que ignora a cultura
totalitária que articula o Estado em Cuba não pode entender através
da reportagem o porquê de tais restrições. A reportagem opera com
a suposição de que todos já conhecem o totalitarismo cubano.
A transposição do
raciocínio acima para a narrativa da reportagem propriamente dita
anula qualquer perspectiva crítica, na medida em que esta buscou nas
ruas, entrevistando as pessoas comuns, a opinião dos cubanos sobre
sua cultura política. Nenhum dos entrevistados criticou a ausência
de liberdade. Cuba jamais conheceu o liberalismo político. Segundo a
reportagem, os cubanos estão satisfeitos com sua vida política
totalitária. O absurdo de uma tal postura é evidente, pois como
pode uma população que vive sob o controle stalin-fidelista, há
seis décadas, não temer afrontá-lo ou mesmo apresentar um
conhecimento mínimo das liberdades elementares, se estas jamais
existiram como cultura política da população cubana? Se os
repórteres fossem entrevistar os críticos cubanos do regime
político de Cuba, que mencionamos acima, certamente não teriam
encontrado apenas o que chamaram de “permanência da chama dos
ideais da revolução na população”. Parece que o reatamento
diplomático dos USA com Cuba deu licença para o jornalismo
oligárquico brasileiro juntar-se ao coro pró-stalinista
bolivarianista da esquerda latino-americana.
Contraditoriamente, a
reportagem mesma fala de um “desejo da população de conhecer
outros "sistemas políticos”. Vivendo sob um controle
totalitário da informação como podem os cubanos fazer uma crítica
comparativa de sua vida política? Confrontando a diferença extrema
entre o senso comum da cultura totalitária com países onde há
liberdade de informação, a reportagem parte para uma generalização
impossível de aceitar: “não importa o sistema político ou o
modelo econômico, em qualquer país a população acha que as
prioridades devem ser a saúde, a educação e a segurança”. E
emenda: “em Cuba não é diferente”. Para dizer em seguida que é
muito grande em Cuba o contentamento da população cubana em relação
a estes três aspectos. A defesa do stalinismo adquire assim a
retórica benevolente do senhor colonial. Claro que a criminalidade
em Cuba é baixíssima! A violência sem lei de seu Urstaat dá um
poder tão absoluto à sua polícia que ela tem poder para
aterrorizar até o comportamento de um cantor de rock, como citamos
acima. A reportagem assim está louvando o funcionamento da polícia
sem os limites legais?
A passividade da reportagem em relação ao controle absoluto da
polícia sobre o mundo da vida cubano também é curiosa. Em quinze minutos de conversas
com a população em uma rua de Havana, os repórteres foram
abordados três vezes por policiais e nas três tiveram que mostrar a
autorização do Estado cubano para filmar. Proibidos de filmar na
área interna do Porto de Mariel, que está sendo construído com
financiamento de capital público do BNDES, os repórteres também
foram abordados por vigias do lado de fora do porto, que determinaram
o fim das filmagens. A ausência na reportagem de uma explicação e
contestação para tal situação, tipicamente totalitária, soa
quase como aceitação natural da restrição do direito à liberdade
de informação, um dos pilares fundamentais das liberdades civis e
única possibilidade de existência do jornalismo. Cuba não precisa
de liberdade de informação?
Em suma, o significante
mestre da vida política cubana, o totalitarismo fidelista,
desapareceu do mapa na cartografia jornalística dos repórteres da
Globo News. Inexplicavelmente, a reinserção de Cuba nas relações
diplomáticas do Departamento de Estado dos USA parece ter dissolvido
a defesa de ideias políticas liberais por parte dos jornalistas da
maior empresa de comunicação do Brasil. Uma tal posição também
foi justificada na reportagem por supostas oportunidades econômicas
que Cuba pode significar para a economia brasileira no futuro. Nisso
a reportagem da Globo News se alinha o patrocínio milionário do
governo totalitário da Guiné Equatorial à escola de samba
Beija-flor. Fato com o qual o Grupo Globo também mostrou-se
conivente. Parece que para a mídia oligárquica brasileira as
perspectivas de lucro soterram qualquer defesa das liberdades
políticas. O totalitarismo oligárquico capitalista da Globo pode,
enfim, dar os braços ao totalitarismo stalinfidelista cubano.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Psicanálise, Cultura Política, Totalitarismo
Grupo Psicanálise, Cultura Política, Totalitarismo no Facebook:
https://www.facebook.com/groups/psicanalise.culturapolitica.totalitarismo/?fref=ts
José
Paulo Bandeira e Almir Pereira.
O Grupo PCPT (Psicanálise, Cultura Política, Totalitarismo) é um campo de pensamento transdisciplinar. Trata-se do campo contraciência freudiana da política. Tal campo está aberto às múltiplas e diversas intervenções disciplinares das ciências humanas (sociologia, ciência política, antropologia, direito, economia, historiografia, geografia), das ciências da comunicação, da psicanálise, do marxismo, da psicologia, da metapsicologia, das neurociências, da filosofia e da literatura. Também está aberto às intervenções das ciências ambientais, da biologia e da física. A ideia é articular a história da natureza à história política universal!
O Grupo não aceitará que seja veiculado qualquer tipo de publicidade, seja econômica, seja política ou de cunho ideológico. Espera que seus integrantes não se deixem alienar - em sua participação -, ou pela lógica da mercadoria, ou pela lógica política do simulacro de simulação. Espera também que a reflexão possa ser metabolizada como cultura contratotalitária.
O Grupo PCPT (Psicanálise, Cultura Política, Totalitarismo) é um campo de pensamento transdisciplinar. Trata-se do campo contraciência freudiana da política. Tal campo está aberto às múltiplas e diversas intervenções disciplinares das ciências humanas (sociologia, ciência política, antropologia, direito, economia, historiografia, geografia), das ciências da comunicação, da psicanálise, do marxismo, da psicologia, da metapsicologia, das neurociências, da filosofia e da literatura. Também está aberto às intervenções das ciências ambientais, da biologia e da física. A ideia é articular a história da natureza à história política universal!
O Grupo não aceitará que seja veiculado qualquer tipo de publicidade, seja econômica, seja política ou de cunho ideológico. Espera que seus integrantes não se deixem alienar - em sua participação -, ou pela lógica da mercadoria, ou pela lógica política do simulacro de simulação. Espera também que a reflexão possa ser metabolizada como cultura contratotalitária.
domingo, 28 de setembro de 2014
Dilma, Getúlio e o Urstaat
por Almir Pereira
Um dia antes
da final da Copa da FIFA, a polícia do Rio de Janeiro foi à
residência de 26 pessoas com mandados de prisão,17 delas foram
presas, 04 permaneceram foragidas. A ação teve a finalidade
explícita de coibir protestos no dia seguinte, nas proximidades do
estádio do Maracanã. Mesmo assim, algumas centenas de pessoas não
se intimidaram. Na tarde da final da Copa se reuniram a dois
quilomêtros do estádio com o objetivo de marchar até este em
protesto. Antes da saída da passeata a polícia militar fez um cerco
humano aos manifestantes, que foram impedidos de se deslocar e
agredidos reiteradas vezes pelos policiais.
Na semana
seguinte as redes sociais pulularam de denúncias contra o estado de
exceção e o caráter político das prisões. O inquérito policial
que embasou os mandados judiciais de prisão permaneceu inacessível
aos advogados dos presos, em flagrante ilegalidade, enquanto as
mídias divulgavam os trechos do mesmo inquérito. Depois da
concessão de habeas corpus a
uma parte dos presos e de uma nova decretação de prisão contra
eles, em 23 de julho o TJ-RJ
concedeu finalmente um
novo habeas corpus a todos os acusados. Na
concessão desta última medida o desembargador responsável por ela
argumentou que a prisão temporária não se fazia necessária em
vista do fato de que nem em caso de condenação os indiciados seriam
presos, já que para as acusações mais graves contra eles as penas
geralmente são convertidas em penas alternativas.
Para
solicitar os mandados de prisão e assim impedir os acusados de
protestar, a polícia se baseou na suposição de que estes tinham
uma potencialidade criminosa. Isso significou transformar a paranoia
em instituto jurídico. O que foi corroborado pelo judiciário quando
este emitiu os mandados. Em termos jurídicos, portanto, tal ação
não passou de um simulacro de legalidade para que seus agentes
dispusessem do uso da força como arma política. Agentes policiais e
judiciários se fizeram de instrumentos para uma ação violenta do
Estado sem observar a legalidade.
O
governo Dilma declarou seu
apoio a tal ação
através do ministro
da justiça, José Eduardo
Cardozo, que disse que as
prisões foram um ato dentro da legalidade (estadao.com.br). Em coerência com a defesa de prisões arbitrárias de
manifestantes o Governo Dilma recolocou o Exército
no cenário político brasileiro, de onde estava
afastado desde o final dos anos 1980, em virtude das atrocidades
cometidas por seus agentes
durante a ditadura civil-militar de 64 e também ao longo do governo
despótico de José Sarney, a
quem serviu como polícia sanguinária na greve dos metalúrgicos da
CSN em 1988. Dilma
atribuiu ao Exército
a função de espionar
potenciais manifestantes (estadao.com.br) . Já
que a função do Exército
é guerrear, esse ato é
uma declaração de guerra do
governo Dilma contra seus
oponentes políticos e contra
as multidões que protestam nas ruas?
Em 11 de agosto de 2014 a presidente Dilma Roussef tomou mais uma medida de mesma natureza que as ações governamentais acima. Ela sancionou a lei 13.022/2014, que dá poder de polícia e porte de armas às guardas municipais. Dado o privatismo dominante na cultura política brasileira, podemos dizer que agora todos os prefeitos disporão de uma milícia privada financiada com dinheiro público. Certamente que as guardas municipais serão usadas para subjugar todas as forças de oposição política nos municípios, mas especialmente para impedir ações de protesto dos cidadãos, como as ocupações de dezenas de câmaras municipais que ocorreram país afora a partir das jornadas de junho de 2013.
Em 11 de agosto de 2014 a presidente Dilma Roussef tomou mais uma medida de mesma natureza que as ações governamentais acima. Ela sancionou a lei 13.022/2014, que dá poder de polícia e porte de armas às guardas municipais. Dado o privatismo dominante na cultura política brasileira, podemos dizer que agora todos os prefeitos disporão de uma milícia privada financiada com dinheiro público. Certamente que as guardas municipais serão usadas para subjugar todas as forças de oposição política nos municípios, mas especialmente para impedir ações de protesto dos cidadãos, como as ocupações de dezenas de câmaras municipais que ocorreram país afora a partir das jornadas de junho de 2013.
Como
reação à prisão dos manifestantes no Rio de Janeiro ganhou força
um movimento contra o “estado
de exceção”. A OAB, sindicatos e vários movimentos sociais se
juntaram para denunciar as
arbitrariedades cometidas pela polícia e pelo judiciário.
Para
muitas pessoas estas
arbitrariedades configuram
a vigência de um “estado
de exceção” (Agamben) no
Brasil, já que tais ações
ignoram o “estado de direito”.
Essa gestação de um Estado
sem lei durante um período de vigência da democracia já aconteceu
no Brasil. Durante o período
democrático que se iniciou no
mês de julho de 1934, Getúlio Vargas foi
paulatinamente abolindo os controles legais sobre o exercício do
poder de Estado até que no
dia 21 de março de 1936 todos
os direitos democráticos foram suprimidos.
A
caracterização
como estado de exceção da
adoção de medidas despóticas pelo Governo Dilma ou do
apoio deste governo à adoção de tais
medidas pela polícia e
pelo judiciário cria uma
confusão teórica na elucidação desses fatos, já que estamos em
plena vigência do estado de direito.
Tal caracterização faz eco
à teoria do estado de
exceção de
Giorgio Agamben, um dos
maiores estudiosos dessa
questão. Agamben explora a
fronteira entre o direito e a política em sua
abordagem do estado de exceção (Agamben).
Para Agamben vivemos
sob o domínio do “estado de exceção permanente”, pois nosso
sistema jurídico-político está organizado em torno do estado de
exceção, o que faz desse sistema “uma máquina letal” que
“continuou a funcionar quase sem interrupção a partir da Primeira
Guerra Mundial, por meio do fascismo e do nacional-socialismo, até
nossos dias” (Agamben: 131). O que Agamben faz assim é implodir a
própria noção de estado de direito, já que este
para Agamben é na verdade
uma derivação do estado de exceção que foi irremediavelmente
dissolvida por este. Portanto o “retorno do estado de exceção
efetivo em que vivemos ao estado de direito não é possível, pois o
que está em questão agora são os próprios conceitos de “estado”
e de “direito”(Agamben:131).
Com
sua
teoria do estado de exceção permanente Agamben descarta a oposição
entre Estado com lei e Estado sem lei, ou seja, entre estado
de direito e despotismo. De
acordo com a teoria do estado de exceção permanente, se há Estado
então há despotismo. O que
isso parece representar é uma abolição da
oposição real/simbólico. Como o real de todo Estado é uma captura
de mais-gozar pelos aparelhos deste, que
nenhuma forma simbólica inscrita no Estado consegue abolir, então
todo Estado é uma forma de escravidão. Mas seriam desprezíveis as
diversas formas simbólicas que o Estado pode adquirir? Para Marx o
trabalho assalariado “é como se fosse uma escravidão”, mas ele
não despreza a diferença entre o proletariado e os escravos, ou
servos, e atribui um potencial revolucionário a tal diferença em
favor do proletariado. Agamben parece insistir na utopia iluminista
que esperava reduzir o real ao simbólico e assim suprimir a oposição
entre eles.
Seja
na sequência de fatos atuais relativos ao Governo Dilma descritos
acima, seja nos fatos relativos à Democracia de 34, que ainda vamos
apresentar, o que está em questão não é o “estado de exceção
permanente” como julgam aqueles que seguem Agamben. O que Dilma
começou a construir
e que Getúlio levou a um
desenvolvimento pleno, foi o
Urstaat: a organização do uso da violência sem lei na forma da organização do uso da violência por leis despóticas. Esta forma é um simulacro da organização do uso da violência sem lei. Em ambos
os casos, o de Dilma e o
de Getúlio, o real da
violência sem lei sendo usada de forma organizada sobre a população
supôs a sua legitimação simbólica pelas máquinas de produção
da opinião pública, antes pela
imprensa, agora pela
mídias, e a dissolução da inscrição simbólica do estado de
direito na legislação, através de sucessivas alterações das
leis democráticas.
O real do uso da violência
sem lei iniciou-se amparado na garantia simbólica vigente no artigo
113 da Constituição de 34, como veremos a seguir. A ampliação do
real uso da violência sem lei
também se deu com a remoção
de garantias simbólicas estabelecidas na Constituição. Isso tudo
sempre se apresenta
articulado também pelo
imaginário, que nos dois casos acima
apresentou-se na forma de um
suposto elemento político ameaçador.
Como
Vargas conseguiu engendrar o Estado sem lei a partir do
estado
de direito? Como ele conseguiu suprimir os controles democráticos do
poder estando o estado
democrático em plena vigência? O Brasil já experimentou outras
vezes a passagem da democracia para um Estado sem lei, mas em pelo
menos duas delas, em 1930 e em 1964, a ruptura da legalidade se deu
de forma abrupta
através de um golpe de
estado perpetrado pelo
Exército
em aliança com frações oligárquicas. De 1934 a 1936 a passagem da
democracia ao Estado sem lei se deu de forma paulatina e por
auto-dissolução, ou seja, as próprias instituições
da democracia foram engendrando
sua extinção.
A resposta a estas questões está ligada à emergência do “objeto
totalitário”(Zizek: 67) na democracia de 34. Vargas incorporou
como sua função a de “agente-instrumento ilegal da lei” (Zizek:
67) arrogando-se o papel de defensor da ordem contra a subversão.
Para Getúlio a reintrodução da democracia no Brasil significava um
obstáculo ao “necessário saneamento da vida financeira [e ao]
equilíbrio orçamentário” do país. Para ele “só a manutenção
da ditadura, livre de peias políticas poderia” (Neto. 2013: 201)
garantir as condições necessárias para o enfrentamento de tais
questões. Para o oligarca de formação positivista, admirador
confesso do fascismo (Neto. 2012: 346), na política a ordem
administrativa exigia a supressão da democracia.
Mas não era na defesa da ordem administrativa, financeira e
orçamentária que Getúlio fundamentava seu papel de
“agente-instrumento ilegal da lei”. Isso ele alicerçava
arrogando-se defensor da ordem política e social contra a subversão.
Para tanto ele tinha criado, em janeiro de 1933, a Delegacia Especial
de Segurança Política e Social (DESPS), para o comando da qual
nomeou o sinistro delegado Filinto Müller. Este tornou-se famoso por
sua crueldade e truculência contra presos políticos,
características reconhecidas e apoiadas por Getúlio. A escalada de
prisões promovidas por Filinto Müller no comando da DESPS chegou ao ápice ao final de 1936, quando ela atingiu o número de 7.056 presos
políticos, oficialmente sob sua custódia. Fora outras centenas de
prisões extra-oficiais (Neto. 2013: 258).
Entre os presos a maioria eram trabalhadores ligados a sindicatos
independentes do Governo. Também havia muitos jornalistas, além de
militares, professores das faculdades de direito e de medicina do Rio
de Janeiro, os escritores Graciliano Ramos e Jorge Amado, um senador,
três deputados federais e o médico Pedro Ernesto, prefeito do Rio
de janeiro durante a Democracia de 34. Todos acusados de subversão.
A médica Nise da Silveira foi encarcerada por participar da União
Feminina do Brasil e por possuir livros marxistas. O educador Anísio
Teixeira perdeu o cargo de secretário municipal de educação e
cultura sob a suspeita de ser ligado aos comunistas. As condições
das prisões e o tratamento dispensados aos presos eram insalubres e
brutais. As denúncias de tortura eram numerosas e frequentes. Nessa
época o Brasil e a Alemanha nazista tinham relações internacionais
amigáveis. A DESPS estabeleceu um intercâmbio com a GESTAPO
(polícia política nazista) para troca de informações e mandou um
de seus agentes fazer um estágio de um mês com o nazistas, com os
quais ele aprendeu, inclusive, novas técnicas de tortura.
A escalada de arbitrariedades e de violência policial não se
baseava somente em acusações genéricas de subversão. A subversão
era o termo mais amplo dentro do qual a categoria comunismo era o
rótulo mais frequente atribuído aos oponentes do Governo Vargas.
Comunista também era a imagem mais demoníaca do imaginário
político oficial. Na medida em que o ódio anti-comunista se
espalhava pela sociedade, através de ações de propaganda do
Governo ou dos jornais, crescia o apoio popular à repressão contra
todos que a polícia política de Getúlio taxasse de comunista. A
difusão e intensificação da paranoia anti-comunista teve papel
fundamental para o governo Vargas ir ganhando um apoio crescente para
suas propostas de supressão dos limites legais democráticos ao
exercício do poder e ir gradualmente implantando um Estado
despótico.
A própria Constituição de 1934 abria precedentes para a
instauração de uma “caça à bruxas”, já que foi introduzido
nela o conceito de “segurança nacional” e a autorização da
expulsão de estrangeiros “perigosos à ordem pública”. A partir
destes pontos Getúlio pode articular uma narrativa persecutória
contra os que se opunham ao seu governo, acusando-os de atentarem
contra a “segurança nacional”. Sendo que na definição de
“ameaça à segurança nacional” podia caber qualquer coisa que o
Governo julgasse útil à ampliação de seus poderes. Como o
comunismo era uma ideologia internacional e internacionalista, estas
características eram apresentadas pelo governo Vargas como sinais
automáticos de “ameaça à segurança nacional”. Como uma parte
considerável do movimento operário era de estrangeiros, a garantia
legal de expulsão destes do país visava intimidá-los e afastá-los
de quaisquer ações de protesto e reivindicação.
Já em 1934, a repressão policial ao movimento operário
independente e ao jornalismo crítico do Governo começou a crescer.
Em 07 de outubro aconteceu a “Batalha da Praça da Sé”, quando
uma manifestação integralista foi dissolvida à força
por militantes do movimento operário (comunistas, anarquistas e
outros). Do confronto resultaram seis mortos e ao menos 50 feridos. A
partir daí a repressão policial contra o movimento operário não
parou de crescer. Os integralistas, no entanto, não eram incomodados, já
que o chefe de polícia do Distrito Federal, Filinto Müller,
simpatizava com sua ideologia e Getúlio os via como úteis para uma
aliança tática. A perseguição ao sindicalismo independente também
era uma reação a uma série de greves de trabalhadores que foram
deflagradas no período. Como a nova constituição garantia ampla
liberdade de reunião e de manifestação pública, a mobilização
dos trabalhadores por suas reivindicações voltou a ganhar força.
Os jornais de oposição também passaram a ser atacados pela
polícia com base em interpretação do artigo 113 da Constituição,
que embora assegurasse a liberdade de expressão, proibia a
“propaganda de guerra ou de processos violentos para subverter a
ordem política ou social”(Neto. 2013: 199). Jornais foram fechados
sob a acusação de incorrerem nessa infração. O Jornal do Povo
foi o primeiro. Seu diretor foi preso arbitrariamente e só foi solto
mediante protesto da ABI. Dias depois, o Barão de Itararé, apelido
do jornalista Apparício Torelly, foi sequestrado, espancado e teve
seus cabelos raspados. Era um recado intimidatório da polícia
getulista contra o jornalismo.
Diante da brutalidade e das arbitrariedades da polícia política
com os jornalistas e com o movimento operário e da tolerância de
Vargas com as manifestações dos integralistas os ânimos
daqueles que não se submetiam ao despotismo getulista era cada vez
mais acirrado. Todos aqueles que acreditavam minimamente nas
liberdades democráticas estavam indignados com o terror de Estado
que se estava instalando contra os que se opunham ao Presidente. A
polícia e os partidários de Getúlio, no entanto, reclamavam
poderes ainda mais despóticos para reprimir as oposições. Getúlio
e seus aliados argumentavam que os direitos democráticos eram um
empecílio para o combate da ameaça comunista. Uma parte cada vez
maior da mídia cerrava fileiras com esta narrativa. Desse contexto é
que surgiu a proposta da “Lei Monstro”.
“Lei Monstro” é como a imprensa e as organizações operárias
da época apelidaram a Lei de Segurança Nacional (LSN). A LSN criava
uma “base legal ampliada para o funcionamento repressivo do
sinistro supereu despótico getulista”(Silveira: 110). Isso se deu
porque ela “tornava inafiançáveis uma ampla gama de 'crimes
contra a ordem política e social', tornando praticamente impossível
a existência de oposição política ao Governo Vargas. A LSN também
autorizava a retirada de circulação de jornais, o confisco de
livros e a apreensão de revistas. Quem fosse acusado com base na LSN
não tinha direito à ampla defesa e era submetido a rito sumário”
(Neto. 2013: 206). Em função da propaganda anti-comunista e da
oposição das classes médias e dos empresários em relação às
greves dos trabalhadores, estes setores sociais acolheram a LSN com
louvor.
Em
função do grande
apoio dos setores sociais dominantes, a LSN foi aprovada no Congresso
por ampla maioria. A primeira vítima da Lei
de Segurança
Nacional
foi a ANL (Aliança Nacional
Libertadora), uma frente ampla nacionalista, reformista e democrática
formada por militares egressos do tenentismo, comunistas e
nacionalistas não getulistas. A ANL chegou a ter quatrocentos
núcleos espalhados pelo Brasil, mas depois de ampla campanha de
grande parte dos jornais associando-a ao fantasma da conspiração
comunista todos eles foram fechados pela polícia. O próprio governo
ficou surpreso com a ausência de reação dos trabalhadores e de
setores das classes médias que haviam participado com milhares de
pessoas das mobilizações da ANL. A passividade popular demonstrada
diante do fechamento da ANL foi mais um sinal da eficácia do terror
getulista contra as oposições ao seu governo.
O único
setor que supostamente ainda restava na oposição a Vargas estaria
dentro das fileiras do Exército. Sob o comando de Luís Carlos
Prestes, que havia retornado clandestinamente da União Soviética, o
PCB apostava numa rebelião militar para derrubar Getúlio e alçar
Prestes ao poder. A rebelião militar liderada por Prestes foi
deflagrada em 27 de novembro de 1935 em duas unidades do Exército no
Rio de Janeiro. Como o Governo tinha informantes entre os comunistas,
as autoridades não foram surpreendidas e a rebelião foi sufocada em
algumas horas. Somente algumas dezenas de militares aderiram ao
movimento, contrariando a expectativa imaginária que pairava em
torno da figura do líder da Coluna Prestes. Para os comunistas a
mística em torno de Prestes atrairia grande número de adesões.
Essa mística não se mostrou tão forte e a falta do elemento
surpresa impediu a presença de Prestes nos quartéis para ativá-la.
O movimento no Rio de Janeiro foi precipitado por duas rebeliões
militares deflagradas em Natal e no Recife nos dias anteriores. Em
reação a estas o Governo propôs e o Congresso aprovou, por ampla
maioria, em 25 de novembro, o estado de sítio em todo o país.
Com o fracassado
movimento liderado por Prestes e a decretação do estado de sítio,
multiplicaram-se as prisões de militantes comunistas e de soldados e
oficiais suspeitos de simpatizarem com a rebelião. Luís Carlos
Prestes também acabou preso e todo o dispositivo clandestino do PCB
que organizou a tentativa de golpe foi desmantelado e encarcerado. A
força militar, estratégica e política dos comunistas mostrou-se
quase insignificante enquanto uma capacidade real para a tomada do
poder, mas passou a ser alardeada pelo Governo e pelos jornais como
se tivesse proporções muito maiores. Isso facilitava a expansão do
Estado sem lei pelas forças getulistas e transformava qualquer
protesto em colaboração com o sinistro e gigantesco mostro
comunista.
Getúlio tinha
informações suficientes para abortar a rebelião comunista, mas
preferiu deixá-la acontecer e servir-se dela como “o pedacinho de
real”(Zizek: 156) que potencializaria exponencialmente a paranoia
anti-comunista em que fundava-se a expansão do Urstaat. Na
atualidade esta função de “pedacinho do real” é exercida pelos
atos violentos niilistas promovidos por manifestantes. Outra forma de
aumentar a paranoia anti-comunista e anti-oposição foi a
circulação de calúnias contra os rebelados. Perpetuou-se nas
forças armadas brasileiras a versão de que alguns dos 22 militares
mortos, que permaneceram leais a Getúlio, teriam sido assassinados
pelos rebelados enquanto dormiam nos quartéis. “Nos dezessete
volumes que compõem o inquérito policial (…) não houve nenhuma
menção a [este] fato”(Neto. 2013: 250). Com tal versão falaciosa
os rebelados foram convertidos de insubordinados antigetulistas em facínoras assassinos de seus próprios companheiros de caserna.
O tentativa comunista
de tomar o poder serviu para calar completamente as vozes que ainda
se opunham ao Governo na imprensa. Esta foi ampliando sua conivência
com as arbitrariedades do Governo não só por afinidade
anti-comunista com este, mas também por conveniência financeira, já
que o Governo Vargas era um importante financiador para a maioria dos
órgãos noticiosos. Mas o fato símbolo da submissão jornalística
ao Governo foi a oferta do título de sócio benemérito da ABI a
Getúlio Vargas em agradecimento pela doação de verbas oficiais
para a construção da sede própria daquela instituição, isto num
momento em que a polícia política impunha-se a qualquer voz
dissonante na imprensa. Na cerimônia em que recebeu tal título,
Getúlio agradeceu a submissão dos jornalistas: “Quando se tornou
necessário assegurar a integridade da pátria, não foram menos
bravos os combatentes da pena, cerrando fileiras em torno do poder
público, prestigiando-o, esclarecendo a opinião e repelindo com
energia, a audácia dos executores do plano arquitetado e custeado
por estrangeiros para transformar o Brasil em colônia de Moscou”
(Neto. 2013: 253).
Com as derrotas de
todas as forças políticas de oposição e o silenciamento total da
imprensa, Getúlio solicitou ao Congresso a ampliação de seus
poderes. Após negociação com os parlamentares, que incluiu o
recebimento de dezenas deles em audiências individuais com o próprio
Getúlio, a Câmara aprovou com mais de 70% dos votos, três emendas
à Constituição que ampliavam os poderes discricionários do
Presidente. A primeira “autorizava o presidente da República a
equiparar a então 'comoção intestina grave' ao estado de guerra”,
o que, quando posto em prática, suprimiria todas as garantias
constitucionais. A segunda emenda “determinava a perda de patente e
de posto, por decreto do Executivo, de qualquer oficial da ativa ou
da reserva que houvesse praticado crime de subversão”. A terceira
permitia a demissão sumária dos funcionários públicos acusados de
crimes políticos (Neto. 2013: 254).
Em seguida à
aprovação destas três emendas Getúlio restabeleceu o estado de
sítio, que havia sido suspenso para o Congresso votá-las, e
aprofundou-se a escalada de prisões a inimigos reais e imaginários
do Governo. Isso, inclusive, demandou “a criação de cinco novas
colônias penais agrícolas para dar conta do grande número de
prisioneiros considerados 'perigosos socialmente” (Neto. 2013:
254). Paralela à generalizada perseguição policial Getúlio
institucionalizou a paranoia como política de governo ao criar a
Comissão Nacional de Repressão ao Comunismo, “que incentivava, em
caráter oficial, as delações públicas de adversários políticos
– ou mesmo de simples desafetos” (…). A simples denúncia
originava a prisão imediata do suspeito. Não era a certeza da
prática efetiva do crime, mas a mera possibilidade de um delito vir
a ser praticado que determinava o encarceramento de um indivíduo”
(Neto. 2013: 257). Tal comissão tinha, por isso, um caráter
inquisitorial.
Em um tal clima, mesmo
com as denúncias frequentes de tortura generalizada e maus tratos aos
presos, só alguns parlamentares se arriscavam a usar o único canal
público de protesto que restou: a tribuna do Congresso Nacional.
Alguns juízes também não se furtavam ao seu papel e para desagrado
da Comissão anticomunista de Getúlio concediam habeas corpus
à presos que o Governo não desejava ver em liberdade. Incentivado
por seus principais agentes de repressão a endurecer ainda mais a
perseguição a seus oponentes, Getúlio, em 21 de março de 1936,
encerrou a breve e autodissolvente democracia iniciada em julho de
34. Através da decretação do estado de guerra por Vargas todas as
garantias constitucionais foram suprimidas, inclusive os direitos dos
parlamentares. Com isso o Congresso foi invadido pela polícia e os
parlamentares que vinham denunciando a tortura foram presos.
A extensão do Urstaat
no governo de Dilma Roussef ainda é pequena quando comparada com
aquela estabelecida por Getúlio em março de 1936. Do ponto de
vista lógico, no entanto, as medidas despóticas de Dilma se
equiparam plenamente ao sentido político da atuação de Vargas ao
longo da Democracia de 34. No caso da atual presidente do Brasil ser
reeleita, ela usará a força política conferida pelas urnas para
seguir seu trabalho de produção do Estado sem lei no século XXI
brasileiro. Todas as demonstrações da presidente nos últimos meses
corroboram esta perspectiva. Assim a Democracia de 1988 aprofundará
seu processo de autodissolução e transmutação em despotismo,
assim como aconteceu com a Democracia de 34.
Bibliografia
Amaben, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo, Boitempo,
2004.
Neto, Lira. Getúlio: Dos anos de formação à conquista do poder
(1882-1930). São Paulo, Companhia das Letras, 2012.
Neto, Lira. Getúlio: Do Governo Provisório à ditadura do Estado
Novo (1930-1945). São Paulo, Companhia das Letras, 2013.
Silveira, J. P. Bandeira da. Oligarquia e política. Rio de
Janeiro, Publique-se, 2014.
Zizek, Slavoj. Eles não sabem o que fazem. Rio de Janeiro,
Jorge Zahar Editor, 1992.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Produção do contemporâneo, resenha do livro
por Almir Pereira
Uma parte considerável dos textos sobre a política atual que circulam como literatura especializada, jornalismo ou comentários em redes sociais é de uma repetição profundamente entediante. Seja na reprodução dos cânones acadêmicos ou nos comentários simplórios do senso comum, é imensa a proporção de explicações estéreis no sentido de jogar luz sobre o que está acontecendo. As pessoas que já intuíram que a atualidade política representa mudanças profundas e inéditas sentem tais explicações como uma força de repressão intelectual à sua intuição.
Uma parte considerável dos textos sobre a política atual que circulam como literatura especializada, jornalismo ou comentários em redes sociais é de uma repetição profundamente entediante. Seja na reprodução dos cânones acadêmicos ou nos comentários simplórios do senso comum, é imensa a proporção de explicações estéreis no sentido de jogar luz sobre o que está acontecendo. As pessoas que já intuíram que a atualidade política representa mudanças profundas e inéditas sentem tais explicações como uma força de repressão intelectual à sua intuição.
Quem
acompanha o fluxo dos significantes políticos nas redes sociais tem
notado o quanto a internet se tornou uma Babel de idéias políticas,
onde significantes teoricamente opostos ou excludentes passaram a ser
misturados. Tal confusão revela muito mais do que ignorância
teórica por parte dos internautas, revela que na superfície das
práticas políticas a formalidade das idéias consagradas não tem
mais eficácia simbólica. O imaginário padrão tem sido cada vez menos efetivo
na oferta de significantes capazes de simbolizar o real fugidio da
política. Também o simbólico tem se mostrado fugidio em sua relação com o imaginário político.
Daí as conversas sobre política nas redes sociais serem cacofônicas
e muito raivosas.
O leitor que busca contribuições efetivas do pensamento político atual
tornou-se um garimpeiro em jazidas escassas. Sua paciência e atenção
tornaram-se os principais parâmetros para encontrar algo de valor
numa imensidão de explicações repetitivas e convencionais, que se
apresentam como sendo argumentos revolucionários capazes de dar
conta das reviravoltas políticas que nos deixam perplexos a cada
dia. A predominância dos profetas de fatos passados dificulta muito
o reconhecimento dos verdadeiros poetas do presente.
Os
interessados na reflexão fértil da política de hoje em dia devem ler
Produção do contemporâneo, livro de José Paulo Bandeira,
lançado recentemente pelo selo “Publique-se”, da Livraria
Saraiva. Trata-se de um livro de ensaios, sendo que o maior deles
ocupa quase a metade do livro e apresenta uma visão panorâmica dos
fenômenos e objetos que caracterizam a política na atualidade. Os
outros ensaios se dedicam a temas mais específicos, mas não sem
localizá-los no encadeamento lógico que produz a contemporaneidade
como uma totalidade.
Produção
do contemporâneo mostra como estão colocados na política
brasileira vários fenômenos atuais que não se restringem ao
Brasil. Fenômenos políticos universais que formam um encadeamento
mundial, mas que em cada país, região ou continente, particularizam-se nos traços específicos de cada contexto. Por isso
também é um livro sobre a especificidade da cultura política
brasileira e sobre como esta tem redefinido o sentido dos
significantes políticos da cadeia política mundial. Redefinição
feita a partir das práticas políticas seculares no Brasil.
Também
podemos dizer que se trata de uma obra sem restrições intelectuais,
pois trafega por uma enorme extensão de campos teóricos produtores
de conhecimento acerca da política. O livro vai da filosofia
política clássica de Aristóteles até a psicanálise Lacaniana,
passando pelos mestres das ciências sociais brasileiras. Um exemplo
relevante da fertilidade desse método é o uso estratégico do
Urstaat, originário do
pensamento de Nietzsche, autor que geralmente não é associado à
reflexão da política.
O Urstaat é uma regressão ao Estado originário que tem se generalizado nas diversas realidades nacionais da atualidade. Regressão diante da qual o pensamento especializado tem repetido uma terminologia moderna impotente, como mostra a proliferação de termos como Estado de exceção e ditadura. O despertar do Urstaat tem se tornado uma praxe, por isso não pode ser classificado como “exceção”. Como esse despertar não dissolve formalmente as instituições liberais, a classificação desse fenômeno como sendo a implantação de uma ditadura não demonstra consistência. O Urstaat simboliza com eficácia uma lacuna do pensamento político e joga luz sobre uma das maiores sombras políticas do contemporâneo.
O Urstaat é uma regressão ao Estado originário que tem se generalizado nas diversas realidades nacionais da atualidade. Regressão diante da qual o pensamento especializado tem repetido uma terminologia moderna impotente, como mostra a proliferação de termos como Estado de exceção e ditadura. O despertar do Urstaat tem se tornado uma praxe, por isso não pode ser classificado como “exceção”. Como esse despertar não dissolve formalmente as instituições liberais, a classificação desse fenômeno como sendo a implantação de uma ditadura não demonstra consistência. O Urstaat simboliza com eficácia uma lacuna do pensamento político e joga luz sobre uma das maiores sombras políticas do contemporâneo.
A
política na atualidade caracteriza-se pelo poder titânico das
operações de amoldamento da vida segundo a perversão dominante e
pela reação das multidões rebeldes que não aceitam mais as
crescentes privações a que são submetidas por tais operações.
Esta é a principal tese do livro, que mostra o quanto vivemos numa
era de ultrapassagem de paradigmas políticos seculares, que está
inviabilizando o pensamento convencional. Por isso, trata-se de um livro-convite à ruptura com este tipo de pensamento político. Não
porque proponha algum vanguardismo, mas porque simboliza esse processo
novo que está remodelando as formas políticas conhecidas e, assim, dissolvendo a eficácia do pensamento político
vigente.
Um dos
problemas contemporâneos a ser resolvido é o problema do governo
possível. A tradição revolucionária moderna nos garantiu que
encontraríamos a forma simbólica do real, e o que adveio disso foi
a tragédia stalinista, forma acaba da negação do incosciente
político. Agora sabemos que qualquer tentativa de abolir o
inconsciente político nos guia em direção ao pior. Uma abordagem
fértil do governo possível é elaborada em Produção do
contemporâneo. “Como objeto
socialmente valorizado, o governo possível seria o efeito da
sublimação das pulsões do inconsciente político que levam o luto
e a desolação para a política”. Para
tanto a política deve ser operada como lógica do significante
amizade. A amizade é um significante do campo da ética. A amizade
imperfeita é a ética da cidade, “distinta da amizade perfeita
entre muitas pessoas”(p.54), esta oriunda do imaginário
aristotélico. A amizade na multidão, inclusive na multidão
virtual, abre para a possibilidade de reinvenção do espaço público
no século XXI.
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